domingo, maio 06, 2007


Ser é ser visto.

Ver é trazer à existência.

Eu sou como sou visto. Olhas-me e eu

sou criado por ti.

Olho para ti e criei-te.

Sou o reflexo na superfície

dos teus olhos .

Estou ali para que me possas ver.

Vejo os meus olhos no espelho dos teus olhos. Vejo-me a

ver-te veres-me.

“The Mediations of Joseph C. Merrick” – The Elephant People, Daniel Keene

Segundo o jornal MAISTMA o novo espectáculo de Keene (Elephant People), uma ópera a estrear em Julho de 2007 em França, abre com as meditações de Joseph C.
Merrick (1862-1890) – o Homem Elefante (transposto por David Lynch em 1980)

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domingo, abril 29, 2007

PEDRA, PAPEL E TESOURA de Daniel Keene

Fonte: Companhia de Teatro de Almada

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Encenação de Jorge Listopad
INTÉRPRETES
António Banha, Catarina Ascensão, José Wallenstein, Maria Arriaga
TRADUÇÃO Maria Arriaga
CENÁRIO António Casimiro
LUZ José C. Nascimento
FIGURINO Sofia Vilarinho

produção da COMPANHIA DE TEATRO DE ALMADA
Criação

O teatro experimental é como um laboratório de perspectivas, onde cada espectador encontra o inesperado.
Da peça pouco deve ser dito, por estar ainda por mais umas semanas em cena. Mas é de salientar dois pormenores curiosos.
Antes da peça começar na sala, pelos diversos espaços junto do público, a narradora andava com copos de whisky
e vinho. O significado é óbvio.
O cão, personagem também apareceu no grande átrio de entrada.
Eu fiquei a um passo dos actores
(linear) em diversas cenas quase que tive que me desviar...

As personagens expressam-se a partir de um discurso partido, e é possível perceber a anti-evolução da história, procura-se antes mostrar como tudo é demasiado igual.
Uma das frases ditas por Kevin:

"Por que é que já não pode acontecer mais nada?!"

Formiga

domingo, abril 22, 2007

A TRAGÉDIA DE JÚLIO CÉSAR de William Shakespeare



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Tradução
José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto e Luis Miguel Cintra

Encenação Luis Miguel Cintra

Cenário e figurinos Cristina Reis

Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção

Música original Vasco Mendonça

Elenco André Silva, Dinarte Branco, Dinis Gomes, Edgar Morais, Filipe Costa, Hugo Tourita, Ivo Alexandre, Joaquim Horta, José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Luís Lucas, Martim Pedroso, Pedro Lamas, Nuno Lopes, Nuno Gil, Pedro Lacerda, Ricardo Aibéo, Rita Durão, Tiago Matias, Teresa Sobral, Tónan Quito e Vítor de Andrade.

Músicos Gonçalo Marques trompete, Marco Santos percussão, Nuno Costa guitarra.

Co-produção com o São Luiz Teatro Municipal


Foi há quatro anos que assisti à peça Tito Andrónico, da Cornucópia, na sala principal do Teatro Nacional D. Maria II. Nessa data percebi que Luís Miguel Cintra era um bom actor, apreciei o seu desempenho nesta peça que em parte marcou o desenrolar dos acontecimentos da minha vida.
A tal ingenuidade acerca da grandeza do encenador e actor Luís Miguel Cintra não fazia espécie de contraste acerca da autopercepção de valor e predisposição para disputar novos desafios.

Se muitas coisas diferentes hoje são, muito se mantém numa aparência de estacidade enganadora. Essa condição de dinâmica latente pode gerar uma leve descrença.
O nome deste blog: Formiguinha da Terra é uma homenagem a todos que persistem contrariar suas naturezas que por vezes pareciam ser impostas por outros, os cépticos.
Nessa época uma pessoa soube acreditar... uma professora em fim de carreira foi além de sua competência, soube dar amor. A dedicação, o mostrar que tudo seria possível, se déssemos tempo ao tempo, por ventura, o único e legitimo pedido: tempo.
A resignação deu lugar a um ambicioso projecto de vida que nestes dias vai dando os seus frutos.
Esta digna senhora recebeu pouco mais do que entusiasmo e correspondência aos seus bons conselhos.
Talvez uma vontade sua de auto-realização ou uma ideologia. Porquê nós? Nem todos podem ser os escolhidos. Eu fui.
A vontade própria aliada a alguém que insiste na revelação do nosso valor, mesmo que quase todos digam: "Não vai conseguir! O melhor é desistir!"
É por essa razão que essas pessoas, visionárias, embutidas de fé e esperança, sem fazerem perguntas, sem muito saber acerca de nossas vivências passadas geram autênticos milagres. É caso para afirmar que estas coisas simples têm um tremendo valor.

Andrónico foi tomado como louco numa loucura consentida, mas fingida.
Essa parte do texto é ainda recordada de forma entusiástica. No entanto parecia passados alguns meses vir sinais de arrependimento e pensar que assistir a esta peça tinha sido um erro.
Havia qualquer coisa a incomodar, uma querença crescente.
No palco da vida aprendiam-se coisas novas, por exemplo: a tolerância só existe quando não se incomodam os outros. Mais tarde o Dr. Laborinho Lúcio no Congresso da Prosalis desmistifica o conceito e sem tabus reforçou esta ideia.
As mudanças geram respostas abrasivas. Mas quando o sistema está viciado apenas conta sobreviver. Se Tito acabou a história vivo, já não tenho comigo essa lembrança, mas tenho a convicção que tudo fez para manter sua dignidade, mesmo pagando o preço mais elevado de todos: a sua reputação. O discurso contraditório servia para o tornar menos credível e como consequência foi alvo de chacota. Por fim salvou sua honra.

Da peça de 22 de Abril, último dia de representação poder-se-á dizer que durou três horas e meia com um intervalo de dez minutos.
Gosto da temática, ainda estou a digerir o texto e todo o simbolismo posto na encenação.
Uma primeira ideia gera esta premissa de que uma atitude de complacência e uma boa conduta ética são recusadas por uma sociedade manipulada pela dialéctica de Marco António.
As intenções verdadeiras de cada um não estão inscritas em lado nenhum, e acabam por ser as circunstâncias a ditarem leis.
No entanto, no meio de uma guerra sangrenta, o imprevisível: o reconhecimento da honestidade de Bruto, após sua morte.


A encenação é inteligente, todas as portas, todo o espaço envolvente é usado pelas personagens. Quando as personagens entram em cena vão encontrar os mantos dobrados em cima das cadeiras da primeira fila.
Os actores estiveram por momentos nas costas do público, nas laterais, com e sem falas. Tudo para dar o ambiente da Roma antiga.


O Teatro Municipal de S. Luiz é uma sala bonita, em talha dourada. O tecto tem uma pintura de anjos e por cima do palco a cabeça dourada de um leão.
A sala está repleta de cadeiras vermelhas, tem camarotes em vários níveis e talvez também galerias.
O átrio de entrada é alegre, os funcionários usam uma farda à antiga.
As pessoas do público tinham o aspecto, das pessoas que ao teatro costumam ir: A tal cultura do teatro, parece tentar à encenação do próprio corpo.

Com uma peça tão longa carecia antes uma boa refeição tomar. O lugar escolhido, repare-se que é mais do que um simples espaço, o Café S. Luiz é mesmo o lugar onde se juntam pessoas interessantes.
E a ementa é no mínimo criativa. A minha escolha recaiu numa bebida Indiana de Especiarias (leite quente com cardamomo, gengibre, canela e cravinho) e um Muffin de queijo e tomilho (doce de pêssego, figos e nozes). O serviço eficiente e de uma simpatia aprazível.


As passagens preferidas do Formiga:

"Tu dormes Bruto, acorda";


"Ai Cássio estou doente de muitas penas";

"Matar é palavra de ordem. Está na moda" (Bruto)

"Espanta-me que este homem de fraca figura possa estar à frente de uma mundo tão majestoso!"


DEDICO ESTE TÓPICO AO AMIGO ANDRÉ, QUE CONSTRUI UM BLOG ACERCA DO USO DO PODER: www.usodopoder.blogspot.com

Formiguinha



quarta-feira, abril 18, 2007

Dúvida


Teatro Maria de Matos

Dúvida

Sala Principal
Em cena de 27-03-2007 a 06-05-2007

de John Patrick Shanley

encenação Ana Luísa Guimarães

4ª a sáb. às 21H30 | domingo 17H





1964. Uma igreja e escola católicas. Bronx, Nova York.
Um Padre é suspeito de assediar sexualmente uma criança de 12 anos.
A Madre Superiora acusa-o. O Padre reclama a sua inocência.
Será ele culpado ou inocente?

Fonte: Teatro Maria de Matos

Interpretação Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo

M/16


Solidão não pedida, por vezes quase rejeitada por motivo da dúvida. O lado mais perturbador da consciência é a face mais genuína do silêncio, a loucura íntima que se deve à incapacidade de não nos termos como culpados, a pensar amiúde, sem descanso nas linhas que separam a solidão do abandono se confrontados os não factos com a realidade.
Então é possível pensar na solidão apenas por nos sentirmos sós, mas no abandono estamos sós efectivamente. É a consequência de não acreditarmos nos gestos significantes. No entanto o pior preço a ser pago pelo desmazelo da honra alheia em última instância é a insanidade. A Madre Superior de Shanley com uma propensão natural para o conflito, a descrença nas atitudes de todas as pessoas da sua comunidade acaba por fazer soar a velha máxima: "Se não compreendes, vês incerteza ou invejas o próximo, então mais cedo ou mais tarde tudo se reverterá a ti, próprio". A velha Madre acabou a duvidar de si mesmo.
Quem não se soube de escusar do baú das desconfianças espalhou sofrimento por toda a parte, a começar nas crianças como primeiras vítimas.
Acerca do Padre e a irmã professora poder-se-á afirmar que foram percursores de uma nova dinâmica de vivência plena cristã, as mudanças fazem-se dessas tensões e distensões. As subtilezas do quotidiano inseridas num contexto de Fé que por sua vez é nosso guia, porque somos seres do mundo unos. Estas ideias estão explicitas nos textos do Concilio II do Vaticano.
Ainda somos todos pequeninos perante a riqueza de textos do Concilio II, a diferença entre apenas se cumprirem rituais ou constituirmos um corpo. Belissima interpretação de Eunice Muñoz e Diogo Infante.
Formiguinha

segunda-feira, abril 02, 2007

Semana Santa - 2007

Fotografia cedida por: Cristina


A montanha e a Bíblia


Às pessoas dos países evoluídos a montanha evoca bons ares e paisagens de sonho. Quando conseguem tempo livre de preocupações e de trabalho, refugiam-se no remanso duma montanha, que as retira da agitação das grandes metrópoles. Os antigos, essencialmente religiosos, com a fé viam na montanha muito mais: viam o lugar por excelência de manifestação da divindade e do encontro com o divino. Várias montanhas, onde a fé colocava a aparição de determinada divindade a figuras humanas fundadoras, eram elevadas ao estatuto de sagradas. Por isso, algumas montanhas sempre foram - até aos dias de hoje - lugar de peregrinação religiosa.
Assim era também nas civilizações pré-clássicas. Não admira que o povo bíblico - uma delas - partilhasse esta religiosidade. A sua fé viu na montanha um símbolo especial da presença do seu Deus. Já do patriarca Abraão se diz ter sentido o apelo de Deus no monte Moriá (Gn 22,1-19). É no alto do monte que o relato da aparição do seu Deus e a exigência do (suspenso) sacrifício do próprio filho deixa a mensagem de que o verdadeiro Deus não quer a imolação de seres humanos em sua honra.

A experiência do Êxodo dos hebreus do Egipto descreve uma teofania a Moisés "na montanha de Deus, o Horeb" (Ex 3,1), que o consagrou para a missão libertadora. A montanha da 'sarça ardente' torna-se o lugar de união da transcendência com a imanência, do divino com o humano (Ex 3,5). A mais célebre é a montanha do Sinai (outro nome para "a montanha de Deus"), onde a fé colocou nova teofania (Ex 19-34). O narrador não se preocupou por localizá-la com precisão geográfica. O importante era indicar um lugar sagrado ao encontro do povo com o seu Deus, um símbolo privilegiado da manifestação da glória divina, isto é, do ser de Deus enquanto projectado para o exterior. Foi a este monte especial que a fé do povo associou a doação da lei de Deus, fazendo-o aparecer como o monte da lei e da aliança, o monte que liga a terra ao céu.

Outro monte que exerceu influência no povo bíblico foi o de Sião, um lugar favorito a Israel. Corresponde a parte da cidade de Jerusalém e foi enriquecendo ao longo dos séculos a sua significação política e religiosa: moveu e comoveu o espírito humano ao menos durante um milénio. Foi para lá que David transladou a arca de Deus (2Sam 6-7), símbolo da presença do Deus da aliança no meio do seu povo. Assim, Sião tinha o mesmo simbolismo que o Sinai no Êxodo. Aí viria a ser construído o majestoso templo de Jerusalém, por decisão de David e execução de Salomão. Foi também por abrigar o templo que os profetas enalteceram o monte Sião, símbolo da congregação do povo disperso em vários exílios.

O universalismo de alguns profetas viu mesmo no monte Sião o pólo agregador de todos os povos: "No fim dos tempos o monte da casa do Senhor estará firme, assente por cima dos montes, elevado acima das montanhas. Para ele confluirão todas as nações, acudirão povos numerosos e dirão: vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacob; Ele nos ensinará os seus caminhos e nós seguiremos as suas veredas, pois de Sião sairá a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor" (Is 2,2-3; Miq 4,1-3). A esta ideia ecuménica andava unida a realidade da peregrinação popular, uma ou mais vezes por ano, ao monte do templo de Jerusalém, que produziu e usou os "Salmos de peregrinação" (120-134).

O Novo Testamento conserva este simbolismo da montanha e refere muitas como lugar privilegiado do encontro com Deus.

O monte das bem-aventuranças (Mt 5,1) aparece como o novo Sinai, onde Jesus, qual novo Moisés, promulga a nova lei programática para o novo povo da nova aliança.

O "monte alto" da transfiguração (Mt 17,1-9; Mc 9,2-10; Lc 9,28-36) tem significação muito especial. O facto de os evangelistas não indicarem o nome dele (a associação ao Tabor é uma tradição cristã do séc. IV) quer essencialmente relacioná-lo com o monte Sinai, o monte bíblico da revelação de Deus. O relato de Mateus não deixa dúvidas sobre essa ligação, para que o Jesus que sobe ao novo monte Sinai com três discípulos principais apareça como o novo Moisés que subiu ao monte Sinai com três notáveis de Israel (Ex 24,1-11) e como o supremo revelador de Deus: "este é o meu Filho amado em quem pus a minha complacência; escutai-o" (Mt 17,5). Como Moisés entrou dentro da nuvem que cobria o monte Sinai e tinha o rosto luminoso (Ex 24,15-18; 34,29-35), assim acontece com Jesus (Mt 17,2.5), assistido das duas figuras do Antigo Testamento que receberam revelações no monte Sinai e personificam a Lei e os Profetas, isto é, todo o AT, ao qual Jesus veio dar pleno cumprimento. Como o povo de Israel viu a glória do Senhor no cimo do monte Sinai (Ex 24,16-17), também os discípulos viram a glória de Jesus (Lc 9,32), ou seja, que ele é como Deus, Filho de Deus: o novo Moisés transfigurado tem atributos divinos. A sugestão de Pedro para "fazer aqui três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias" (Mt 17,4; Lc 9,33) faz alusão à festa da colheita, chamada no judaísmo 'festa das três tendas' ou dos Tabernáculos (Dt 16,13; Lv 23,34), porque se utilizavam tendas para evocar as tendas de Israel no deserto durante o Êxodo. Lucas acrescenta que Pedro "não sabia o que dizia", significando que, se no Êxodo o símbolo da presença de Deus no meio do seu povo era a tenda, agora Jesus é que é Deus connosco. Os discípulos ainda têm medo, como o povo de Israel diante do monte Sinai (Ex 19,16; 20,18-21). Mas, como fez Moisés, também Jesus os tranquiliza (Mt 17,6-7): o medo é próprio de servos, não de filhos. É deste monte que arranca a peregrinação definitiva de Jesus para "Jerusalém, onde se ia realizar o seu êxodo" (Lc 9,31), que na teologia de Lucas é o ponto culminante da história da redenção.

O monte das oliveiras serve de enquadramento à paixão de Jesus, mas também à sua ascensão ao céu (Act 1,9-12; Lc 24,50-53), portanto, lugar da revelação do amor e da glória de Deus em Jesus.

Jesus dessacralizou a montanha como lugar privilegiado do encontro com Deus. Quando a samaritana lhe diz "os nossos pais adoraram neste monte [o monte Garizim, no qual os samaritanos construíram um templo, em concorrência com o de Jerusalém] e vós dizeis que Jerusalém é onde se deve adorar, Jesus respondeu-lhe: acredita-me, mulher, chegou a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém, adorareis o Pai...; os verdadeiros adoradores adorarão o Pai com espírito e verdade, pois o Pai quer pessoas que o adorem assim" (Jo 4,20-24). O 'lugar' privilegiado do encontro com Deus é agora Jesus Cristo, Palavra definitiva de Deus. Depois de ter incarnado num ser humano, é especialmente nos humanos, no "próximo", que amamos Deus.
Todavia, esta dessacralização da montanha não lhe retira o seu simbolismo. Ela surge na vida do cristão como uma imagem que atrai a vida humana para as alturas, dando-lhe elevação e sentido superior. A montanha, alta e majestosa, aponta à fé a vocação essencial do ser humano a ascender pela senda íngreme e estreita da verdade e do bem. Quem faz o exercício sagrado da peregrinação ao monte proclama íntima e socialmente a sua condição de caminhante sobre a terra, na dureza e nas alegrias da vida; proclama que se sente atraído por "um novo céu e uma nova terra"; declara-se insatisfeito com o já realizado e desejoso de subir mais na vida do espírito. A imagem do monte está impregnada de uma simbologia particular no cristianismo, pelo facto de a vida de Jesus emergir qual caminhada que culmina no monte Calvário do perdão do mal moral e da salvação universal. O cristão que sobe ao monte deseja voltar de lá mais identificado com o mistério que esse lugar sagrado simboliza, onde a cruz, que lá nunca falta, está a apontar para a vida sem fim.

Fonte: Armindo dos Santos Vaz
Faculdade de Teologia, Universidade Católica Portuguesa

domingo, março 11, 2007

Não és tu, Sou Eu

Clique na imagem para ver site oficial

Título original: No Sos Vos, Soy Yo
De: Juan Taratuto
Com: Diego Peretti, soledad Villamil, Cecilia Dopazo
Género: ComDra
Classificação: M/12

ARG/ESP, 2004, Cores, 105 min.
De uma forma pouco estilizada este filme levanta questões pertinentes acerca das várias concepções que nós sociedade ou comunidade temos de enamoramento e solidão. Os críticos também se enganam, este é um filme magnífico e delicado.Ao recordar " A vida e tudo mais" de Woody Allen, numa comparação vemos neste filme algumas semelhanças, por exemplo: ambas personagens são neuróticas, ambas mulheres são frívolas, e ambas histórias expõem intrigas previsíveis. O marco que realmente diferencia os dois filmes na análise da sua forma é sua densidade. "Não és tu, Sou eu" é um filme directo, pragmático, mas sério nas seriações que faz das diferentes situações, tão arrojado que bastaria ser verídico para ser um documentário.O psicanalista do filme é uma personagem com carácter didáctico, quase que é possível absorver intrinsecamente o todo do discurso do analista. O discurso do faz ou não faz de Maria é a maior predição para o que se adivinha o cruel abandono e o luto que neste filme dura cerca de 7 a 9 meses, o tempo médio estipulado para a regeneração de perdas importantes e significativas.Poucos filmes mostram de forma tão directa a causa efeito dos sucessivos falhanços, como é feito neste caso com Javier. O medo tem destas coisas, ocupa espaço, que deveria ser dado ao amor. E nada acontece... Fonte: Formiga


domingo, fevereiro 25, 2007

Half Nelson


De:
Ryan Fleck
Com:
Ryan Gosling, Shareeka Epps, Anthony Mackie
Género:
Drama
Classificação:
M/16
Estúdios:
Hunting Lane Films
EUA, 2006, Cores, 106 min.


Nas suas aulas, Dan abraçou a dialéctica de conceitos e valores e como método de ensino, e pouco a pouco os resultados vão aparecendo no seio de um grupo de alunos oriundos de bairros degradados.
O flagrante neste filme é que o contraste entre o professor atencioso e competente e o homem quase andrajoso do dia-a-dia que acaba por fazer jus à sua teoria aplicando-a ao seu estilo de vida.
Porém é fácil encontrar um ponto de convergência, fora dos “opostos”: a dependência química e a necessidade de preencher o vazio existencial junto dos adolescestes de sua aula. O mal de se encontrar fora do sujeito o motivo de uma pseudo manutenção mínima do seu bem-estar pessoal, porque socialmente o nosso Dan está arredado. As oportunidades surgem e são desperdiçadas, ironia do destino, na aula é ensinado a um aluno que as segundas oportunidades devem ser aproveitadas. Aqui mais uma vez a teoria dos opostos em espaço real e em novo paradoxo. Será Dan um fingidor? Um performer? E sua audiência acredita no desempenho do seu papel? (Goffman) A resposta seria não. Porquê? O melhor será mesmo ver o filme.

----------> Para ver trailer do filme clique aqui

----------> Para ver o site oficial clique aqui

Nesta apresentação podemos ver o professor a explicar que nos podemos opor à máquina mas não deixamos de pertencer à mesma.
O site está bem construído e funciona correctamente.
Ryan Gosling foi nomeado para um Óscar na categoria de melhor actor pelo seu desempenho neste filme.
E por último perguntar ao grande público se é possível obter uma conexão entre esta obra cinematográfica e o tópico de Jean Baudrillard?
formiga

sábado, fevereiro 17, 2007

Jean Baudrillard

"A questão agora é como podemos ser humanos perante a ascensão incontrolável da tecnologia."

Jean Baudrillard (Reims, França 1929 é sociólogo e filósofo francês)



Baudrillard além do seu trabalho teórico tem uma intensa actividade artistica como poeta e fotógrafo com vários trabalhos exposto em França e por todo o mundo.
"O Anjo de Estuque" é o seu mais recente livro , publicado em parte na edição número quatro da revista Confraria do Vento.

O Anjo de Estuque


IV


A água é tão clara
que aceita o jorro
dos bichos.
Tudo é exacto
ou avivado
em cena
não longe da compreensão humana
ou sob a foice
sob a cinza
sob as águas-mães.
Os músculos estriados
enervam o chão
revirado. Até a água
tem a enervação
do teor do mal.
E nada é separado.
Tudo é exalto como
o sangue sob as unhas.
Assim se alternam
as coisas imaginadas
que circundam seu
próprio vazio, onde reluz
imersa como
cadeira a espada
gestual do Sol.


VI


O avesso do céu
gravado em cobre
e desensolarada a própria água
entre o fim da feira
e o mercado de flores
quando ultrapassamos a imagem
uns dos outros
olhos abertos – mas
sem quebrar a simetria
no entanto
o brilho dos olhos vem
do jogo das ideias contrárias e
da incerteza da vontade, e
se desde cedo nossos sonhos
nos forem explicados – para que
andar a noite inteira?
Até as mais frágeis meninges
das árvores, dos degraus,
de perto ou de longe
é a fidelidade de um só
ou no fingidor, o inverno,
a vergonha feita da
maciez de um corpo
estranho.
Escorcioneiras genitais
e perfumadas
do desejo
a ave sinclinal chama
com seu guincho de harpia
anticlinal da floresta.


VIII


Em cena ou
sob paredes violentamente
iluminadas
mas contidas
e preservadas,
sem nunca tocar o chão
peripécia animal – leveza
peripécia mental – a dança
e as batalhas
nem vitória nem derrota,
a guerra é isso,
e as espirais dos ladrilhos
são essas
de todo jeito – mas
fogem por baixo delas como
um sonho alternativo
cursivo ou discursivo
as linhas de fuga
as superfícies planas
a carne crua, se balança
entre lanternas gémeas.
E a luz é tão fria
que distingue vinho
e água
num só copo.
São as andorinhas que
voltam de onde vêm.
E o fogo se apaga lentamente
como um fogo que
se apagasse lentamente.


X


Um relógio sem ponteiros

impõe o tempo

mas deixa adivinhar a hora.

A escuridão é simples ou

a contraditória

das cortinas verdes.

A água é macia ao toque

qual morte natural.

Exterior morno é

o alburno dos freixos e

o papo dos galos

friável sob os dedos

e translúcido

sob as pálpebras da máscara

como os élitros das borboletas

mortas – mais morno que

as estratificações interna das íris

o humor vítreo

dos olhos –

quente e assexuada

a noite

qual olho sem cílio

qual janela sem hera

nua e assexuada

a superfície do solo

livre da quadratura das paredes.


XII


Amarga
nas mãos enluvadas
a luz artificial
o Norte
mas um grito único, a infância
parece garganta nua
o Oriente
a sede e
a satisfação da sede
o calor inteiro
a aberração das forças
o meio-dia do verão –
mesmo vazia a cena conserva
uma saída possível –
no entanto interna é
a falível
sem pensar, e o vento
doce, rente às paredes,
a si mesmo – elasticidade
como por um vidro escuro
desafinado
ou trôpego
o Ocidente
brinquem gritem
nossas unhas são tão grandes
que os quatro cantos do céu
grudam nelas como terra
cavada – e
nem chão nem céu, mas quis
o sol de fora
não só os gestos são
calculados, as próprias mãos
têm ciúmes uma da outra.


tradução de Cristina Abruzzini Werneck Lacerda

e Adalgisa Campos da Silva






sexta-feira, janeiro 05, 2007

Breathe me de Sia




Ajuda-me, eu fi-lo de novo
Eu tenho estado aqui muitas vezes antes
Magoei-me a mim própria novamente hoje
E o pior é que não há mais ninguém tbm para culpar

Sê meu amigo
Segura-me, embala-me
Descubra-me, eu sou pequena e carente
Embala-me e respire-me
Ai, eu me perdi de novo
Perdi-me a mim próprio e estou para ser encontrada
É, eu pensei que pudesse quebrar
Eu perdi-me de novo, e sinto-me desprotegida

Sê meu amigo
Segura-me, embala-me
Embala-me e respire-me

Sê meu amigo
Segura-me, embala-me
Embala-me e respira-me

Letra traduzida de Breathe me de Sia


Sia Furler é uma cantora e escritora de canções australiana que já trabalhou com os Zero Seven e Beck. É ao som deste tema “Breathe me” que termina o último episódio da série Sete Palmos de Terra.
O tema da letra da canção faz-me lembrar uma personagem do filme francês de Arnaud Desplechin: “Reis e Rainha”.
Existe um vinil e cd single com as várias versões desta tema, a minha preferida é a dos Four Tet remix com excelentes rufs de bateria e um órgão muito interessante. A rádio Radar apostou neste tema que passou vezes sem conta durante o ano 2006.
Adquirir o CD é uma tarefa ardilosa por não existir nas lojas habituais, nem por importação. Fonte: fORMIGA





terça-feira, janeiro 02, 2007

Breathe Me

Inserida na banda sonora da série: SETE PALMOS DE TERRA

domingo, dezembro 24, 2006

Amor Suspeito

Amor Suspeito

Realização: Emmanuel Carrere

Com: Vincent Lindon, Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Hippolyte Girardot, Cylia Malki, Macha Polikarpova, Fantine Camus

Site oficial: La Moustache

Género: Drama/Thriller

Distribuição: Vitória Filme

Classificação: M/12

França, 2005

86min

Data de estreia: 21 de Dezembro de 2006


"Amor Suspeito" é a história de um homem (Vincent Lindon) que decide rapar o bigode. Nos primeiros planos, Lindon toma banho de imersão e, passando-lhe a ideia pela cabeça, pergunta à mulher (Emmanuelle Devos) o que pensa. Ela responde que não sabe o que pensar, sempre o conheceu com bigode. Ele decide-se e rapa o bigode, à nossa frente. Depois vem a improvável crise: a mulher não dá sinal de notar que ele o rapou, os amigos também não, os colegas idem. Nada, nicles, como se nunca tivesse havido bigode - e é aliás o que todos lhe garantem, "nunca tiveste bigode", quando ele ganha coragem para abordar o assunto.
Compacto, em linha recta, sequíssimo e sem palha nenhuma, "Amor Suspeito" está algures entre Kafka e as histórias de Serling, ou os contos de Roald Dahl ou os nacos de perversidade que Hitchcock apresentava, também na televisão. Um mundo que se vira do avesso por dá cá aquela palha, mas que ao mesmo tempo se mantém exactamente igual. ... uma espécie de fábula metafísica sobre o modo como um homem se apaga quando tudo em seu redor parece negar as certezas da sua identidade, da sua memória, da sua experiência. Fonte: Luís Miguel Oliveira (Público)

Emmanuelle Devos mantém a vocação de “castigar” homens, já observada no “Reis e Rainha”. Uma realidade subversiva tem como norma a contradição na quebra da alteridade que provoca a experiência da não identidade.

Norma essa que está inscrita num conjunto de valores que regem comportamentos.

Este filme mostra as características das sociedades: as ocidentais e orientais no deambular desconcertante da personagem principal por Paris e Hong-Kong.

Não é fácil de perceber a razão de se estar inserido no meio com expressões afectivas significativas e uma vontade manter a relação firme, e no entanto a verdade aparece distorcida. A sociedade na sua crise afectiva e medo patológico de recorrer ao enraizamento mais profundo do amor larga a herança mais temerária de todas: a dissonância da comunicação associada também à compressão do tempo. A consequência desta situação é nas vivências do quotidiano gera-se a incapacidade para a intimidade. Tão fácil de verificar essa situação no filme num momento em que a mulher se levanta e atende o telefone e ele aproxima-se, saindo da cama a vestir-se. Situação curiosa?

A grande alegoria desta história é o conflito surdo, improvável entre a personagem e sua comunidade.

Fonte: Formiga







Vermelho Transparente

Uma história inverosímil, não gostei do texto:

"Então já matou o seu marido?"





domingo, novembro 19, 2006

Filoctetes, no Teatro do Bairro Alto


Filoctetes é um herói grego originário da Tessália, filho de Peante e de Demonassa. Segundo o mito, foram-lhe confiados o arco e as flechas de Héracles.

Chefiava um contingente de sete naus com cinquenta arqueiros, mas não chegou a Tróia com os outros chefes, pois durante a escala em Ténedo, foi mordido no pé por uma serpente, enquanto procedia a um sacrifício. A ferida infectou de tal modo que exalava um odor de putrefacção insuportável. Devido a isso, Ulisses e os outros chefes abandonaram o ferido em Lemnos, onde permaneceu dez anos.

Uma outra versão contava que Filoctetes fora ferido não por um animal, mas por uma flecha de Héracles envenenada que caíra da aljava, atingindo, acidentalmente, o pé do herói, como vingança de Héracles, que quis desse modo punir o perjúrio cometido por Filoctetes ao revelar o local onde ardera a pira erguida no Eta.

Ainda segundo outra versão, os gregos abandonaram Filoctetes na ilha para que ele curasse o ferimento, pois existia em Lemnos um culto de Hefesto cujos sacerdotes tinham fama de saber tratar mordeduras de serpente. O herói ter-se-ia curado, chegando algum tempo depois a Tróia, para se reunir ao exército grego.

Sófocles, na tragédia intitulada Filocletes, conta que o herói se feriu não em Ténedo, mas na pequena ilha de Crise, onde existia um altar de Filoctetes, com as imagens de uma serpente e de um arco esculpidas em bronze. Ele fora mordido por uma cobra escondida no meio de ervas altas, no momento em que limpava o altar de Crise.

A gruta onde Filoctetes viveu durante dez anos foi a única testemunha do sofrimento e da solidão deste herói. Esta gruta é caracterizada por Neoptólemo e pelo nosso herói.

Neoptólemo caracteriza o lugar habitado pelo triste herói como tendo folhagem calcada (v. 33), um copo tosco de madeira obra de artesão desajeitado e ainda com que fazer fogo (vv. 35-36) e farrapos a secar, cheios de pus repugnante (vv. 38-39).

Filoctetes descreve a gruta pela primeira vez (vv. 954-956) dizendo que a gruta era rochosa com dupla entrada, sem defesa e privado de alimento. Mais à frente (vv.1081-1094), descreve a gruta de côncava entrada como sendo abrasadora e gelada e como única testemunha da sua morte. Na hora da partida o herói despede-se da sua antiga morada (vv.1453-1454) dizendo que esta fora a sua única companhia. Assim sendo, podemos afirmar que o herói vivia enquadrado num cenário que denunciava o primitivismo do seu modus vivendi.

O trágico para Filoctetes não é somente ter sido abandonado em Lemnos. É ter de decidir se permanece na ilha ou ruma a Tróia; se se mata ou não Ulisses; se se suicida ou não. A sua única certeza é que não pretende lutar ao lado dos Atridas e de Ulisses.

A fatalidade em Filoctetes é estar no mundo sem ter participado da decisão. A sorte dele, ou não, foi o adivinho Heleno o ter citado como condição sine qua non para a destruição de Tróia. Se os Atridas não tivessem acreditado em Heleno, teriam deixado Filoctetes abandonado?

O herói viveu abandonado durante dez anos, arrastando-se penosamente pela ilha em busca do necessário. Tinha por companhia as aves, os animais, a solidão, o eco dos seus lamentos (vv. 936-940, 1081-1094, 1146, 1162, 1453...). A vida de sofrimento e de injustiça tornaram-no desconfiado.

A injustiça, o egoísmo e a traição sentidos ao longo de dez anos levaram-no a detestar a própria vida e a detestar-se a si próprio. Os homens já não lhe diziam nada, ou pouco lhe diziam.

Este herói, injustamente tratado pelos companheiros, tornou-se no homem exaltado pelos deuses, imprescindível à sociedade que o desprezou e que agora o tem de procurar. Procura-o, contudo, por necessidade e não para reparar a injustiça que lhe fizeram.

O herói é acusado de rejeitar a sociedade, mas foi ela quem o rejeitou. Filoctetes apenas exigia que o tratassem como homem e não como coisa. No entanto, era um homem livre e não escravo (vv. 995-996) e não se submeteu. Quis continuar livre, ser homem; preferiu a morte – que era certa, após lhe haverem roubado o arco a rebaixar-se e a prescindir da liberdade. Resistiu a todas as pressões, escondidas nas belas palavras e nas promessas mais sedutoras, ou acompanhadas das mais cruéis ameaças. Resistir era para ele uma virtude e não concebia que alguém o pudesse obrigar a fazer o que não queria.

Após a guerra de Tróia pouco sabemos do herói. A Odisseia refere que o herói chegou bem à sua pátria (canto III, vv.189-190), a partir daí podemos supor que o herói conseguiu chegar são e salvo a casa e que conseguiu alcançar a glória que lhe era devida.

O mito de Filoctetes tem subjacente uma clara função pedagógica. Actualmente, essa mesma função ainda prevalece. Quem lê a tragédia sofocliana consegue retirar uma lição de moral: não devemos abandonar ninguém só porque se encontra incapacitado, pois esse alguém, um dia mais tarde, pode ser precioso. Deste modo, o mito tem como objectivo criticar a maneira como a sociedade trata os que estão incapacitados.


Selecção Bibliográfica:

SÓFLOCLES, Filoctetes, Introdução, versão do grego e notas de José Ribeiro Ferreira, 2ªed., Coimbra, 1988, INIC.

FERREIRA, José Ribeiro, O drama de Filoctetes, 1ªed., Coimbra, INIC, série - Estudos de Cultura Clássica: 3, 1989.

MORAIS, Carlos, Expectativa e movimento no Filoctetes, Estudos de Cultura Clássica, INIC.

PULQUÉRIO, Manuel de Oliveira, Problemática da Tragédia So

focliana, 2ªed., INIC, s.d.

Fonte: Ana Carina Costa
Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa


A vitória das emoções

Quando Luís Miguel Cintra / Filoctetes entra em cena, fazendo-se anunciar por gemidos de dor, ficamos logo a perceber o tom, patético, com que o actor decidiu dar corpo à personagem criada por Sófocles. Se, até ao momento, tínhamos ficado impressionados com a frieza do espectáculo – conferida pelo cenário e pelo desenho de luz, mas também pela interpretação contida dos actores – a partir daqui assistimos à entrada em cena do elemento humano naquilo que tem de mais orgânico e de afectuoso. A leitura á óbvia: a civilização torna-nos frios e calculistas, a natureza suaviza-nos, permite que as emoções nos dominem. Luís Miguel Cintra é, neste aspecto, o contraponto de António Fonseca. O seu Filoctetes é tão profundamente comovente como Ulisses de Fonseca é uma crueldade admirável. Os dois actores estão igualmente brilhantes o espectáculo faz-se muito do choque destes dois homens e dos mundos opostos que representam. No meio, está Duarte Guimarães/Neoptólemo, que começa como discípulo de um e acaba convertido ao outro… Para ver e meditar ( neste caso: recordar).

Fonte: Ana Maria Ribeiro, Jornalista, publicado no Correio da Manhã


O Formiga esteve lá


O nº 1 da rua Tenente Raul Cascais é um prédio banal com revestimento pedra de tijolo, tipo azulejo, duas varandas cinzentas sobressaem ao olhar menos atento.

A entrada para o edifício da Cornucópia é estreita, situada entre prédios em frente de uma porta de uma garagem. A rua é curta e termina num parque de estacionamento, com um sentido proibido. Neste domingo de sol pálido, uma temperatura agradável perdurava o silêncio pelas 16:15, dois gatinhos cinzentos malhados estavam deitados por cima da capota de um MG e outro algures.


O público começou a chegar quase em massa, e houve mesmo alguma confusão. A sala situa-se na cave e as cadeiras todas com capas brancas estão numa disposição de anfiteatro, repartidas por duas bancadas, de estrutura metálica de encaixe. A entrada é feita entre ambas.Assim poder-se-á dizer que não temos um palco, tudo decorre ao nível do solo.A destacar do cenário, os espelhos que reflectiam parte da imagem do público presente, talvez um espelho social. Simbologias...
A sala estava lotada com pessoas de várias idades, desde crianças a idosos.
Tinha caído a noite e o Jardim do Príncipe Real, deserto de pessoas, a fazer esquecer o movimento da semana, entrevêem-se perto da paragem quatro senhores vestidos por igual cumprimentam-se afectuosamente, com o Formiga a desaparecer de cena de autocarro. Fonte: Formiga





quarta-feira, novembro 15, 2006

Smiley Faces

Letra de Smiley Faces

But what did you do?
What did you say?
Did you walk or did you run away?
Where are you now?
Where have you been?
Did you come alone or did you bring a friend?

I need to know this cause I noticed you're smiling
Out in the sun, having fun and feeling free
And I can tell you know how hard this life can be
But you keep on smiling for me

What went right?
What went wrong?
Was it a story or was it a song?
Was it overnight or did it take you long?
Was knowing your weakness what made you strong?

Or all the above, oh how I love to see you smiling
And oh yeah, take a little pain just in case
You need something warm to embrace
To help you put on a smiling face

Dont you go off into the new day with any doubt
Here's a summary of something that you could smile about
Say for instance my girlfiend, she bugs me all the time
But the irony of it all is that she loves me all the time

I want to leap whenever I see you smiling
Because its easily one of the hardest things to do
Your worries and fears become your friends
And they end up smiling at you

Put on a smiley face

Fonte: Cotonete

terça-feira, novembro 14, 2006

Gnarls Barkley Smiley Faces

sexta-feira, novembro 10, 2006

OndaJazz

O Formiga apaixonou-se
por Alfama,
talvez por ser uma daqueles bairros
típicos que em cada visita
é possível encontrar
um recanto novo.

O sol mostrava o seu brilho numa destas tardes de sábado, o ideal para uma caminhada.
A escolha recaiu num percurso habitual que vai da Rua do Jardim do Tabaco até ao Campo das Cebolas depois viria o acaso e o acaso desta feita foi uma descoberta agradável: ao passar pelo Arco de Jesus, ao cimo de umas escadas estava o Onda Jazz.
Nada como uma boa porta para encantar o Formiga, com fotos e um programa.
É impressionante saber que artistas tais como o Mário Laginha e Sara Tavares fazem parte do programa. Ficava prometida uma visita para breve.
Na noite das Bruxas um Formiga esteve naquele lugar que já foi um armazém de café, e agora é uma catedral da música ao vivo e de poesia. Pela localização asssemelha-se mais a um daqueles bares americanos clandestinos fora da lei do tempo da lei seca.
Na recepção temos bons relações públicas. Num primeiro contacto notam-se velas estrategicamente bem colocadas a dar um foco de ambiente à casa aprazível, as cadeiras são multicolores: azul, preto e vermelho. As mesas são redondas ou quadradas.
Pormenores: o cocktail consumido era fraquito e rede telemóvel é inexistente. Deve estar relacionado com as paredes demasiado grossas. Construções antigas…


OndaJazz com muito Refilon

O Grupo que estava comprometido a animar a noite tinha o nome de Refilon:

Refilon, o reflexo da génese multicultural do Cabo-verdiano da nova geração Da necessidade de comunicar musicalmente nasceu o projecto Refilon, utilizando para isso uma linguagem assente na cultura e nos ritmos Cabo-verdianos. Uma nova aposta no sentido de valorizar e expandir a música de raiz tradicional e em fusão com todo o conjunto de experiências, emoções e influências. O grupo aposta nas sonoridades afro, nos jogos rítmicos do jazz e nas ambiências do blues.Fluindo nestes argumentos musicais, jogam entre si três guitarras acústicas, outras tantas vozes (às vezes quatro…cinco), um baixo, bateria e percussão, trazendo à tona um repertório de originais.
Fonte: OndaJazz Bar

Este grupo surpreendeu pela positiva.
O violino e as duas guitarras acústicas formam a parte melódica do grupo. Estes instrumentos compõem saudade e melancolia. As baterias e o baixo do Rocha são a alegria contida nos musicois ou instrumentais delirantes. O uso amiúde dos pratos é o assumir que o afro também pode ter muito jazz numa mistura rara e perfeita. "As boas maneiras" ficaram esquecidas mas nem se rasgaram peles, apenas essa ilusão... o efeito de encantar o público presente. Todos divertidos unidos num novo estilo.
Os paradoxos acontecem vezes sem conta e no decorrer do intervalo o Formiga numa pesquisa de rede de tlm pelo caminho pisa o baixo, e para compor a coisa: um polegar esticado traz ambiente e sorrisos. Parecia estar escrito que a segunda parte seria intensa.
Impossível conter umas gargalhadas sonoras, que bons foram aqueles momentos. Uma troca de olhares cúmplices a terminar a noite... faltava então o cacau que veio pelas 03:00 da manhã na Ribeira. Fonte: Formiga

domingo, outubro 15, 2006

Na mesma noite


Imagem cedida por: Cristina C.

Na mesma noite, tudo aconteceu…
Foi possível verem-se, mesmo pela distância,
Mas o importante era sentir a proximidade de suas almas.
Lindo, poder ver seu rosto apaixonado, e, ao mesmo tempo triste.

Talvez pela impossibilidade de se poderem tocar,

Sentir que mesmo longe se faz perto, não era o que queria.

Ele queria de certo muito mais, sentir seu corpo em seus braços,

Deixar o mundo parado de novo.

Mas não era possível, tinham de viver uma paixão distante.

Saber que a distância e a vida os separa, é saber que a morte está longe.

Que o mundo os tem de deixar viver, nem que seja apenas em sonho.

Uma eternidade existe sem dúvidas…eles querem que a vida se prolongue.
Não passam sem se falarem, existe um mistério inexplicável,
Algo que os deixa sufocados, tentando a todo o custo

Improvisar um encontro sem se verem.

É uma aventura, uma paixão, da qual o mundo está ausente.
Não sei se vai ser fácil, estar sem o ver tanto tempo.

Como irá reagir ela? Aguentará a ausência dele, o facto de não o poder ver?

Será possível viver de coração apertado?
As férias são belas, harmoniosas, descansadas,

Sempre bem vidas ao lazer de todos.

Mas ela não gosta, ela não quer, prefere sentir o mundo a girar,

Poder sentir todos os dias a agitação dos Homens…
Mas terá de viver assim, esperando notícias dele.

Não irá sofrer…ele não vai esquecê-la, precisa ouvi-la.

É um sentimento mutuo, de cumplicidade, de harmonia,

Os dois sentem que o Sol só nasce se o virem juntos,
A Lua só aparece quando suas almas fazem parte dela,

O Mar se agita na sua ausência e a Terra gira atiçando a paixão.

E é com o vento que as suas palavras chegam até ele,

E com a chuva que o coração bate, tendo a mesma pulsação.

Yaleo

domingo, outubro 08, 2006

Angel-a

Realização: Luc Besson. Intérpretes: Jamel Debbouze, Rie Rasmussen, Gilbert Melki, Serge Riaboukine. Nacionalidade: França, 2005.

Ele é um subserviente neurótico que é perseguido de forma implacável pelos seus credores. André incapaz de cumprir prazos decide no momento atirar-se uma ponte a fim de pôr termino à sua vida. Até que encontra uma alta e bela loura que de uma forma assumida decide mudar o rumo da sua vida começando pelos problemas práticos e depois os outros: de uma maneira simples expõe feriadas para assim conseguir reastruturar o todo da personalidade do individuo.
Quando Formiga recorda Elizabetown, um filme americano é notado que o motor de bem-fazer é uma paixão fulminante, aqui é diferente por existir um espírito de missão.
A cena do espellho acaba por não ter o resultado pretendido e nisso o filme falha na densidade do drama, já que na comédia provoca o riso com os seus diálogos quase hilariantes.
Boa fotografia e bons enquadramentos.
Formiga

De tanto bater o meu coração parou

"De Battre Mon Coeur's Arrêté"

Um do melhores filmes estreados em Portugal em 2005, o melhor dos quatro filmes do francês Jacques Audiard, "remake" nominal de "Melodia para um Assassino" (1978), de James Toback.
É um "filme negro" sem crime, nervoso e urgente, definido pelo autor como um "romance de iniciação" sobre um trintão que trabalha no lado mais sórdido do imobiliário parisiense (à imagem do pai) que começa a sonhar com a possiblidade de mudar de vida quando surge a oportunidade de passar uma audição como pianista de carreira (à imagem da falecida mãe).
Audiard ambienta esta história num inferno urbano do qual a música se paresenta como a única saída possível, com uma interpretação extrardionária de Romain Duris.

Fonte: Jornal Público, Suplemento Y, J.M.

No Verão de 2006 adquiri a edição especial de coleccionador em DVD que é composta por vários extras, tal como cerca: de vinte cenas cortadas, entrevistas, a explicação da origem do título do filme, uma canção, etc.
Na minha análise a este filme: Tom apenas tolera o seu modo de vida acomodado às diferentes situações impostas pela sua profissão, usa de modo recorrente a condutas violentas para obter resultados satisfatórios para os seus clientes, amigos e sobretudo para o seu pai que solicita amiúde cobranças difíceis.
A falecida mãe, uma pianista de carreira parece estar destinada a permanecer no esquecimento. A outra face da vida com todos os apelos da arte com um sentido que permite fugir ao absurdo urbano haveria por chegar numa oportunidade que surge pela mão do antigo agente da mãe ao incentivar a uma audição com o objectivo de se tornar pianista profissional. Por vezes bastam poucos minutos para os desejos latentes tomarem as rédeas do comando das nossas vidas. E era legitimo o abraçar deste projecto.
Tom toma uma decisão solitária, desapoiado pelo pai, incompreendido pelos amigos... É nesta conjuntura que decide preparar a sua audição com uma professora chinesa recém-chegada, nada conhecedora dos costumes e língua nativos. Sem palavras, com gestos e muita música a relação torna-se densa incrementada de uma cumplicidade cada vez maior.
As solicitações dos colegas para o desempenho de incursões nocturnas não lhe dão o sossego necessário para o sucesso e pouco confiante acaba por falhar.
Mais tarde perde o pai e tudo começa a desmoronar-se como um castelo de cartas. Talvez amparado pela rapariga chinesa já possuidora de bons conhecimentos de francês e a afirmar-se cada vez mais no mundo do espectáculo, Tom consegue estabelecer-se como um agente de espectáculos.
Em tom de conclusão pode-se dizer que aqueles que tão próximos corporeamente, lá vão ocupando um espaço que cada vez parece ser só físico e não se identificam razões das escolhas, pouco é entendido do lado emocional da questão, como é demonstrado no filme: de modo primário temos a incompetência para amar no leito conjugal e esse mal é como se alastrasse a todas as freguesias e o anti-herói deste filme deambula pelas ruas de Paris (ou da amargura) ao som dos The Kills em busca da mudança, de escapar.
Este filme foi visto pelo Formiga numa sala debaixo do nível do solo. Quem conhece o "King"? Formiga