quarta-feira, dezembro 26, 2007

O Vício do Poder

in Traição do eu – o medo da autonomia no homem e na mulher, Arno Gruen

Páginas: 83, 84 e 85


“O vício do poder destrói o coração do homem. Insistindo cegamente em tal defeito, o homem diminui-se a si próprio e à mulher, de cuja cumplicidade precisa, para confirmar a sua imagem de poderoso. É esta imagem que, conscientemente ou não, se tornou o sentido da sua existência. Verdadeiro amor não pode surgir porque ninguém está para ser desafiado nos seus pontos sensíveis. Só o que confirme tal imagem é considerado aceitável numa relação “amorosa” dessas. O “Eu” que teria sido possível a cada um é odiado, como ele inclui, também, a vivência do desamparo e do sofrimento. Evita-se a verdadeira responsabilidade, assim como a verdadeira compreensão do outro e de nós próprios. Vivemos em charadas e quando essas não resultam, enfurecemo-nos e matamos.

Passamos as nossas vidas à procura de heróis. E, no momento em que elegemos para nosso herói (ou nossa heroína) se transforma numa pessoa real, deixamo-lo (ou –la). Passamos a desprezá-lo. Ao agirmos assim nem reparamos como, e dentro da lógica do nosso procedimento, nos sentimos enfraquecidos pela perda” – próximos da morte. A depressão e o desespero que constituem o pano de fundo da nossa cultura aparentemente tão radiante são sintomas inequívocos disso.”

(…)

O homem cria a imagem de poder, de controlo, de invulnerabilidade, no fundo uma necessidade de agir como um herói porque foge da realidade, que contém sofrimento e desamparo. Essa “metafísica do sucesso” pode ser uma máscara de alegria.


“Como é natural, a realidade do mundo sentimental verdadeiro consiste, também, noutros conteúdos vivenciais: alegria, êxtase, coragem e luto.

Mas não da alegria que se instala por passarmos à frente de alguém, ou o êxtase que pode ser causado pelo sucesso obtido numa competição, quer dizer, todas aquelas vivências que, já de si, provém de uma realidade “postiça”: a da necessidade de ter sucesso para fugir ao falhanço. Falo da alegria baseada em empatia causada pelo desenvolvimento de outra pessoa, ou até de uma planta; a vivência partilhada de alegrias e tristezas. (…)”


O mito da mulher troféu, reluzente, que numa desmedida solicitude nos preenche a pretensão do ego para a superioridade, no fundo a presença de outros, em contexto grupal leva o homem ao jogar pelo inseguro.
A mulher como extensão do homem, segundo a teoria deste autor.
Também podemos referir que muitas mulheres ainda valorizam a imagem estereotípica da postura M. Aceitam a condição de sub conjugação, ignoram que sem igualdade, não existe uma verdadeira apreensão da realidade.
A falsa cedência por parte da mulher advém de um défice de confiança intrínseca que teima em parecer carecer de um excesso de auto-afirmação por parte do homem, o seu herói protector.

Arno, Gruen

1996 A Traição do Eu, o medo da autonomia no homem e na mulher, Assírio & Alvim, Lisboa

Livrarias: Assírio e Alvim

Formiga

sábado, dezembro 15, 2007

São Nicolau


O Santo deste dia é São Nicolau, muito amado pelos cristãos e alvo de inúmeras lendas. Nicolau nasceu na Ásia Menor, pelo ano de 275, filho de pais ricos, mas com uma profunda vida de oração. Tornou-se sacerdote da diocese de Mira, onde com amor evangelizou os pagãos, mesmo no clima de perseguição em que viviam os cristãos.

São Nicolau é conhecido principalmente para com os pobres, já que ao receber por herança uma grande quantia de dinheiro, livremente partilhou com os necessitados. Certa vez, Nicolau sabendo que três pobres moças não tinham os dotes para o casamento e por isso o próprio pai, na loucura, aconselhou-lhes a prostituição, atirou pela janela da casa das moças três bolsas com o dinheiro suficiente para os dotes das jovens. Daí que nos países do Norte da Europa, através da fantasia, viram em Nicolau o velho de barbas brancas que levava presentes às crianças no mês de Dezembro.

Sagrado bispo de Mira, Nicolau conquistou todos com sua caridade, zelo, espírito de oração, e carisma de milagres. Historiadores relatam que ao ser preso, por causa da perseguição dos cristãos, Nicolau foi torturado e condenado à morte, mas felizmente salvou-se em 313, pois foi publicado o edital de Milão que concedia a liberdade religiosa.

São Nicolau participou no Concílio de Niceia, onde Jesus foi declarado consubstancial ao Pai. Partiu para o céu em 342 ao morrer em Mira com fama de santidade e de instrumento de Deus para que muitos milagres chegassem ao povo.

Fonte: EAQ

Para saber mais:

Link: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/st_nicolas_p.htm


quinta-feira, novembro 29, 2007

Luzes no Crepúsculo

Luzes no Crepúsculo
Título original: Laitakaupungin Valot
De: Aki Kaurismäki
Com: Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi, Maria Heiskanen
Género: Dra
Classificacao: M/16

ALE/FIN/FRA, 2006, Cores, 78 min.

Argumento

"Luzes no Crepúsculo" conclui a trilogia iniciada por "Nuvens Passageiras" e "Um Homem sem Passado". Depois do desemprego e dos desalojados, a solidão é o tema escolhido por Aki Kaurismäki. Como o pequeno vagabundo de Chaplin, o protagonista, um homem chamado Koistinen, procura num mundo duro uma pequena brecha pela qual possa rastejar. No entanto, tanto os seus semelhantes como o aparato da sociedade sem rosto fazem questão de esmagar as suas modestas esperanças, uma após outra. Um grupo de criminosos explora a sua ânsia por amor e a sua posição de guarda-nocturno por causa de um roubo, deixando Koistinen abandonado às consequências. Tudo isto é feito com a ajuda de uma bela mulher, segundo Kaurismäki a mais apelativa mulher desde "Eva" ("All About Eve"), de Joseph L. Mankiewicz. E Koistinen será privado do seu emprego, da sua liberdade e dos seus sonhos. Mas, felizmente, à frente desta história está um auto-denominado "velho de coração mole" que não deixará o filme encerrar-se sem que uma "centelha de esperança" ilumine a cena final.
PÚBLICO

Aki Kaurismäki esconde os seus receios, as dificuldades vividas em geral na construção dos seus projectos com a intenção de dar uma imagem de sucesso perante uma bela mulher que apenas deseja a descoberta de outros segredos ligados às funções desempenhadas no seu emprego. O nosso homem revela dificuldades de auto-afirmação pelo motivo ser passivo, por ter medo da perda. Poder-se-á dizer que existe uma relação sustentada pelo medo, no fundo sente-se que é sabido que por parte da personagem que não é amada. Mas como nunca apraz ter tido alguém, esta enorme abertura a um mundo fechado e distante é retida com afinco.
Do outro lado da barricada: outra mulher, que sabe de todas as desventuras, e soube vencer o ciúme, não se intimidando com a prisão de Kaurismäki e sua situação precária em geral.
E sobretudo compreendido que as circunstâncias também podem ser determinantes na construção do ser humano.
É deixada a mensagem que mesmo nos grandes desertos, as espécies ínfimas podem ter um (re)começo.
Ainda que a dignidade de pessoa seja ferida de morte, neste caso é nos dado a conhecer um novo trilho a esta personagem, mesmo no uso dos múltiplos silêncios, consegue ser compreendido e amado. A solidão inicial sentida, a tal percepção de um mundo hermético sem espaço para relações sociais significativas é transformada pouco a pouco em afecto e presença mútua, mesmo que a evolução seja lenta é possível observar duas pessoas face a face.
Importante observar a cena do bar, em que um espaço cheio de gente, é o rastilho para ardilosa armadilha.
Só o voltar costas leva ao abandono, aí a certeza do tempo passar acaba por ser vida sem nada inscrito e olha-se para trás e o desejado pode não ser o ideal… talvez a nostalgia de um constructo criado por todos, sem uma base sustentável.
Este filme fez-me levantar uma questão: Será que a desesperada tentativa de um alcance da normalidade não é mais do que o caminho para uma serena loucura?
A bibliografia para a reflexão acerca destas questões é:
formiga



segunda-feira, novembro 05, 2007

Etnocentrismo

Clicar na imagem...

Etnocentrismo reveste-se de uma consciência de que há outras perspectivas culturais, mas estas perspectivas alternativas são julgadas inferiores, incorrectas ou imorais em comparação com as suas (Triandis, 1990). O etnocentrismo culmina na manutenção de distância social, de afecto negativo, de ódio, de desconfiança, de medo, de censura do exogrupo por problemas do endogrupo.


A consultar na net:




quarta-feira, outubro 10, 2007

A estrada que não foi seguida - Robert Frost



Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: muito tempo fiquei
Mirando uma até onde enxergava
Quando se perdia entre os arbustos;
Depois tomei a outra, igualmente bela,
E que teria talvez maior apelo,
Pois era relvada e fora de uso;
Embora, na verdade, o trânsito
As tivesse gasto quase o mesmo,
E nessa manhã nas duas houvesse
Folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabendo como caminhos sucedem a caminhos,
E duvidava se alguma vez lá voltaria.
É como um suspiro que conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu -
Eu segui pela menos viajada,
E isso fez a diferença toda.

Clicar:

Robert Frost (1874-1963), Trad. José Alberto Oliveira


Formiga


sábado, outubro 06, 2007

Donnie Darko

Clicar na imagem para ver a desconstrução do filme

Doniee Darko, a versão de realizador está no cinema Quarteto. São mais vinte minutos com cenas inéditas, efeitos especiais melhorados e novas músicas.
Das confrotanções entre Frank e o livro: "Filosofia do Tempo" de Roberta Ann Sparrow, Donnie produziu este poema:
“Uma tempestade vem,” O Frank diz, “Uma tempestade que engula as crianças.” E eu entregá-lo-eis do reino da dor. Eu irei entregar as crianças de regresso aos seus degraus. (Assim será) mandarei os monstros para trás do subterrâneo.Eu enviar-lhos-ei de volta a um lugar onde ninguém mais pode vê-los. À excepção de mim. Porque eu sou Donnie Darko."
O cinema de autor e/ou independente continua a suscitar um enorme interesse.
O cinema Quarteto e King são a grande referência para os amantes deste estilo de cinema.
Formiga



domingo, setembro 23, 2007

Lacan e Hamlet



Jacques Lacan, em 1958/59, no Seminário chamado “O desejo e sua interpretação” dedicou sete encontros a Hamlet.
Lacan
mostra como funciona a relação do sujeito com o seu desejo: desejo como posição de desejo do outro. O grande problema de Hamlet.

Para compreender o universo shakespeariano à luz do pensamento de Lacan existe um livro da Editora Assírio@Alvim: Shakespeare, Duras, Wedekind, Joyce

Da Escola Lacaniana Brasileira e sobre Hamlet este texto revela carácter de excelência:
TEXTO

Opinião de formiga acerca de Hamlet em cena no Teatro Municipal Maria de Matos:

Se nos abstrairmos das palavras, da peça e vermos só a cena em si onde Hamlet conversa com sua mãe é possivel perceber que nesta encenação não é sentida a tal proximidade excessiva, incomoditiva, onde existe o tal vinculo erótico.
Na sala Almeida Garret, no D. Maria II, Hamlet, não só repelia de forma convicta a sexualidade da mãe como manipulava o seu corpo, num diálogo mais intimo e menos repleto de convicção.
Parecia um Hamlet mais frágil, mais tonto, menos maquiavélico.
O simulacro na relação com a Ofélia constitui realidade.
O subjectivismo da pessoa pode conter todo o amor, mas se a discrepância entre o discurso proferido e as respostas observáveis, for elevada poder-se-á concluir que: NÃO. Ofélia nunca foi amada pelo Príncipe da Dinamarca. No fim da história é o arrastamento moral da perda que leva à falsa retroacção de um amor.
Qual é o sentido do combate com Laertes? O contexto de amor proferido não serviria para evitar tal combate?

O discurso abrasivo e de ruptura (feito a Ofélia) é um simulacro de desamor? Ou é realidade perene e consistente?

O simulacro nunca é o que oculta a verdade
-
é a verdade que oculta que não existe,
O simulacro é verdadeiro.

O Eclesiastes

... e depois a ausência do pai e do amado, e talvez a predição de uma conjectura ainda mais céptica, falha,leva Ofélia ao suicídio. No filme "Per Siempre" do cinema italiano, o único acontecimento: é ausência pelo silêncio. A personagem morre mas de doença, uma doença quase consentida, enfim deixa-me morrer. A culpa trespassa-se através da expressão de um amor à posteriori.
Na peça de
William Shakespeare é o ambiente de conflito de denominação de homem sobre a mulher que determina tamanha vulnerabilidade de Ofélia, incapaz de resistir ao choque e adaptar-se a novas realidades.
O lugar 4 da fila A tem os seus privilégios, tais como ficar em zona frontal no momento que antecede o encontro furtivo com Hamlet, onde Ofélia rezava. Também uma bela oportunidade de perceber a capacidade de actriz Ana Lúcia Palminha no trabalho da expressão de rosto. Parecia o acaso, tamanha a naturalidade.
Ainda a referir o sempre usado jogo de espelhos, 7. E a questão em off "Quem está aí?" Somos nós. Sobre a peça encenada por João Mota existe um bom artigo na Revista Visão.

Sumário para consulta (online):

Jacques Lacan - Biografia e Bibliografia

Lacan - Cronologia

Shakespeare, Duras, Wedekind, Joyce - livro acerca do o universo shakespeariano.

TEXTO - Maria Thereza Ávila Dantas Coelho - Escola Lacaniana brasileira

Teatro Municipal Maria de Matos - sinopse

"Per Siempre" - filme italiano

Revista Visão - documentação especifica sobre a peça na consulta desta revista.


Referências bibliográficas:

O texto da Bíblia, de Eclesiastes: foi retirado da página 7 do livro "Simulacração e Simulação" de Jean Braudrillard.

1981 Simulacração e Simulação. Relógio d' Água, Colecção Margens, 1º ed.