sábado, junho 21, 2008

Tertúlia dos Mentirosos


“São contos, são filosóficos e vêm do mundo inteiro. São Zen ou Sufi, chineses ou judaicos, indianos ou africanos. São também europeus, americanos, contemporâneos. Engraçados, graves, ou as duas coisas, ao mesmo tempo. São, por vezes ambíguos, desconcertantes e, até, inquietantes. Parecem-se connosco.
Jean-Claude Carrière, ao longo de mais de vinte e cinco anos de trabalho, recolheu-os, escreveu-os e ordeno-os como se se tratasse de um manual de filosofia. Trata-se, pois da filosofia através dos contos, de um manual em que o caminho para o conhecimento é aleatório e divertido, constituído unicamente pelas melhores histórias do mundo.
Estes contos, que atravessam o tempo e o espaço, tratam de todas as questões que, ao longo da história da humanidade e da nossa própria história, sempre nos inquietaram e agitaram. Dizem verdades que sós os mentirosos conhecem.
Enfim, dizem-nos tudo aquilo que só os contos podem dizer.”

Lição dada a corcunda
Um pregador, na cátedra, gostava de demonstrar que a obra de Deus não tem falhas.
A história – que é europeia, provavelmente francesa – conta que um corcunda, ao ouvir o pregador, teve dificuldade em acreditar nele. Um dia espero-o à saída da igreja e disse-lhe:
- Dizeis que Deus faz bem tudo o que faz, mas olhai como fui feito!
O pregador examinou-o por um momento respondeu-lhe:
- Mas, meu amigo, de que vos queixais? Para corcunda, sois muito bem feito.

Ver mais em:

Laranja com Canela


O Homem Que Sabia Demasiado

segunda-feira, abril 14, 2008

Luz Silenciosa

Imagem retirada de http://luzsilenciosa.blogspot.com/

O último filme de Carlos Reygadas demonstra uma maturidade de visão espantosa neste conto hipnotizante de amor e de traição que tem como pano de fundo a comunidade pastoral menonita do norte do México. Luz Silenciosa conta a históriade Johan, um homem casado que, contra as leis da sua fé e as crenças tradicionais, se apaixona por outra mulher enfrentando assim um dilema interno, o de trair a sua mulher, a qual amou, e romper desta forma a estabilidade aparente da comunidade ou sacrificar o seu amor verdadeiro e felicidade futura. Filmado de uma forma sublime, inteiramente na comunidade menonita mexicana perto de Chihuahua, Luz Silenciosa abre com o que é discutivelmente o plano único mais notável do ano, a aurora a despontar numa paisagem rural. O controlo da imagem e som de Reygadas confirmam a sua posição como um dos autores de cinema mais distinguidos.
Retirado do dossier Atalanta Filmes: Luz Silenciosa


Se dizer que para alguns cinéfilos este filme foi um longo bocejo, não estarei a fugir muita à verdade. A obsessão pela forma gerou situações de abandono compulsivo na sala. Pessoas que saíram a grande velocidade como estivessem a fugir sei lá do quê!

O meu veredicto: não estamos na presença de uma obra-prima, no entanto há passagens bem significativas que merecem alguma reflexão.

O Homem tem poder para determinar o seu destino, apenas usando o que existe?

Mas é última instância é nos dada a lição que o amor altruísta jamais é intrusivo. Mulher sôfrega sem legitimidade para pedir e não largar o que não é seu por convenção. A desdita “cabra”.

O Johan descobre a sua alma gémea, mas em si no filme não é mostrado um plano de intimidade entre estes dois amantes. Há o banalizado enlace sexual, que é pouco para definir uma relação harmoniosa que não seja a antecâmara do esquecimento passados uns meses.

Mais pertinente é o dilema amor versus paz. A desenvolver por mim agora.

Muitas mudanças e convulsões sociais geraram precariedade e mesmo algum sofrimento, na lógica do enamoramento ainda temos a nota de culpa. Estes são os grandes temas deste filme: a culpa e remorso e o arrependimento.

A resignação é uma via de paz… má? boa? É caso para dizer que sem ti não se vive, ou contigo também não se vive! É um dado viciante, pois evita-se o incómodo do remorso e até um certo desconforto. Mas deste modo é possível: uma bela e temperada desesperança tomar conta das ocorrências da nossa vida. O que fazer? A tal dúvida sistemática, o incómodo e solidão.

Sem procurar generalizar, até porque no mundo dos afectos é uma má abordagem, poder-se-á que é de princípio mor manter uma certa elegância e estilo a par com a capacidade de surpreender mesmo passados 500 mil anos. Se o outro mesmo numa situação tão favorável mesmo assim quer ir em debanda é porque alguma coisa está ainda mui podre no reino da Dinamarca.

Já na nos últimos minutos da fita é visto o sacrifício como prova suprema de amor, alguém renuncia para poder ainda mais amar. Todo o sentido a comparação com o bucolismo rural, onde um germinador de vida também é a luz. E veio a noite…

O filme italiano Baunilha e Chocolate é a ligação perfeita esta Luz Silenciosa. Formiga


Ver videos:

Luz Silenciosa: STELLET LICHT

Baunilha e Chocolate: Vaniglia e Cioccolato


quinta-feira, abril 03, 2008






O Dia Internacional do Teatro celebra-se a 27 de Março.
Neste dia (noite) no Chapitô conheci a grande Senhora do mundo do espectáculo: Teresa Ricou. O saber bem-fazer e o bem saber receber nesta casa com quase 30 anos é uso e costume.
No Bartô as amigas de Formiga ficaram em local privilegiado para assistir ao último espectáculo da noite com Deborah Kristal.
Para conhecer mais acerca do Chapitô e a sua faceta social, também como uma instituição de solidariedade, ver aqui: Artigo de Jornal
A noite começou com uma coregrafia de dança com forte e denso simbolismo e depois o actor Bruno Schiappa e o músico Pedro Fontaínhas estiveram no (I)mortal, um espectáculo ao som de piano com boas canções e poesia com um sentido antropológico interessante.


A grande convidada da noite foi Adelaide João, actriz com muito relevo na história do teatro português.
Também foi possível vislumbrar mais gente do teatro, entre vários, o conhecido actor Miguel Melo (Batanetes).
Momento solene foi a leitura da mensagem do Dia Mundial do Teatro pela actriz e encenadora do Teatro Sensurround, Lúcia Sigalho.
Mensagem de Robert Lapage

(…) ---> clicar para ver o texto na integra

sábado, março 08, 2008

Linha do Tua


"É verdade que Trás-os-Montes se presta dificilmente à abertura de linhas férreas. A construção de alguns trechos das linhas do Corgo e do Tua ofereceu duras e dispendiosas dificuldades. É o que se verifica de modo exemplar, logo a montante da confluência do Tua, nos primeiros quilómetros cortados em rocha viva, , ora em pequenos e consecutivos túneis, ora em patamares e viadutos lançados sobre impressionantes desfiladeiros."

In Guia de Portugal (Trás-os-Montes e Alto-Douro), Fundação Calouste Gulbenkian, página 53


O blog Pimenta Negra - Explica como foi o nascimento do Movimento Cívico pela Linha do Tua o que é defendido por este, contém também a cronologia histórica da criação da linha de via estreita do comboio do Tua.
Para quem não teve o prazer de desfrutar da viagem de comboio nesta linha tem disponível um vídeo em ambos os sites.


Artigo do Jornal de Notícias ( Terça-feira, 23 de Agosto de 2005)


O Formiga...

Longe das origens da família de formiga, a primeira região de Portugal a despertar interesse foi Trás-os-Montes e Alto Douro.
Mas era pouco provável sair de casa se não constasse no programa este percurso sublime e majestoso do Tua.
Notei que as carruagens eram do início do século XX, de origem Britânica creio eu.
Os primeiros quilómetros pareciam prometer pouco, mas se o belo existe, então está nesta viagem de comboio. O amor à natureza faz com facilidade esquecer alturas tremendas. A velha máquina diesel adere a uma curva com sua parte da estrutura no ar, está-se à beira do princípio e não se teme a queda, pelo contrário, sustente-se no fascínio.
E as sequências improváveis, tal como um túnel, um viaduto alto e logo outro túnel, depois o tal conjunto de curvas e contra curvas.
Espero a possibilidade de repetir esta experiência. Entretanto procurei ajudar à divulgação e
defesa da Linha do Tua!
formiga





sábado, fevereiro 23, 2008

Poesia


"A poesia é a própria consciência existencial do Homem, sublimada até um grau desconhecido no comum dos mortais: consciência jubilosa e dividida no esforço de existir, que é a própria vida; consciência daquele combate que dilacera o Homem, do repouso, do equilíbrio em que se ele encontra momentaneamente a unidade, logo quebrada, e depois readquirida e mais uma vez rompida, na alternância perpétua que só pode ter fim na união perfeita do ser imitado a imperfeito com a ilimitada perfeição do Ser Absoluto, em que, somente há unidade e paz."

Carvalho, de José Gonçalo Herculano, Conhecer Poético e Símbolo, Lisboa, Univ. de Lisboa, Fac. de Letras, 1971, p. 7.

sábado, janeiro 19, 2008

Associação Encontrar+se lança movimento “Unidos para Ajudar”



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A Coordenadora do Projecto: Filipa de Almeida Santos Pacheco Palha
Doença Mental: Associação lança campanha anti-estigma
A ENCONTRAR+SE - Associação de Apoio às Pessoas com Perturbação Mental Grave anunciou hoje que vai lançar em Janeiro uma campanha anti-estigma para promover a reabilitação psicossocial dos doentes mentais.
Em declarações à Lusa, a vice-presidente da ENCONTRAR+SE, Maria Luísa Vieira de Campos, adiantou que esta campanha passa pela colocação de outdoors em todo o país, passagem de spots na televisão.
Será também lançada uma «música para a saúde mental», que conta com a colaboração de cerca de 20 músicos e artistas nacionais, entre eles Zé Pedro (Xutos & Pontapés) e Rui Veloso.
«Está mais do que provado que as pessoas que sofrem de uma doença mental grave, como bipolar, esquizofrenia e depressão, têm dificuldades em se inserir na comunidade», afirmou a psicóloga, que falava à margem do debate «A Saúde Mental Um Mundo em Mudança: O Impacto da Cultura e da Diversidade», a decorrer hoje no Porto.
Segundo referiu, a ideia é lançar uma campanha que faça a população perceber que estas pessoas são doentes e não podem ser excluídos devido à sua doença.
«Só os poderemos ajudar se não os excluirmos», sustentou, acrescentando que a ausência de respostas integradas de reabilitação tem condicionado a possibilidade de recuperação de muitas pessoas com doença mental grave.
A responsável referiu ainda que «uma em cada quatro famílias tem alguém com uma doença mental grave».
O presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Adriano Vaz Serra, salientou também a importância do combate ao estigma, afirmando que «os doentes psiquiátricos são lesados nos seus direitos humanos, na maioria dos países», a nível profissional, social e económico, vendo, por exemplo, ser-lhes recusado crédito à habitação.
«Ter um braço partido é incomodativo, mas quando se tem um transtorno psiquiátrico tem de se saber que há zonas do cérebro que têm disfunções e que isto afecta a vida», salientou.
Naquele que é o Dia Mundial de Saúde Mental, a ENCONTRAR+SE comemora o seu primeiro ano de vida apresentando ainda o Mestrado em Reabilitação Psicossocial, organizado em parceria com a Universidade Católica.
Este mestrado «inovador», adiantou Luísa Vieira de Campos, pretende «treinar técnicos para a reabilitação de pessoas com doença mental grave na comunidade».
O próximo passo desta associação é ficar dotada de um espaço próprio, onde possa apoiar doentes e familiares.
«A ENCONTRAR+SE enquadra-se numa filosofia assistencial que se baseia num modelo científico, ou seja, os serviços a prestar partem de boas práticas orientadoras da acção e processam-se através de planos integrados e individuais de reabilitação», refere a nota hoje distribuída pela associação.
Acrescenta que os planos «serão objecto de contínua avaliação no sentido de estudar a sua eficácia, possibilitar a introdução de melhorias e produzir evidência quanto à relação custo/benefício das mesmas».
Diário Digital / Lusa
10-10-2007 14:56:12


Para consultar:

Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e bipolares


"Deixa lá que ele não joga com o baralho todo ou dá-se um desconto". Este Blog vem desmistificar essa forma redutora de tratamento pessoal a pessoas com problemas de saúde mental.
Blog:
"Cuidar sim, Excluir não!"

Acerca da campanha no Diário Digital - Músicos portugueses combatem estigma da doença mental


quarta-feira, dezembro 26, 2007

O Vício do Poder

in Traição do eu – o medo da autonomia no homem e na mulher, Arno Gruen

Páginas: 83, 84 e 85


“O vício do poder destrói o coração do homem. Insistindo cegamente em tal defeito, o homem diminui-se a si próprio e à mulher, de cuja cumplicidade precisa, para confirmar a sua imagem de poderoso. É esta imagem que, conscientemente ou não, se tornou o sentido da sua existência. Verdadeiro amor não pode surgir porque ninguém está para ser desafiado nos seus pontos sensíveis. Só o que confirme tal imagem é considerado aceitável numa relação “amorosa” dessas. O “Eu” que teria sido possível a cada um é odiado, como ele inclui, também, a vivência do desamparo e do sofrimento. Evita-se a verdadeira responsabilidade, assim como a verdadeira compreensão do outro e de nós próprios. Vivemos em charadas e quando essas não resultam, enfurecemo-nos e matamos.

Passamos as nossas vidas à procura de heróis. E, no momento em que elegemos para nosso herói (ou nossa heroína) se transforma numa pessoa real, deixamo-lo (ou –la). Passamos a desprezá-lo. Ao agirmos assim nem reparamos como, e dentro da lógica do nosso procedimento, nos sentimos enfraquecidos pela perda” – próximos da morte. A depressão e o desespero que constituem o pano de fundo da nossa cultura aparentemente tão radiante são sintomas inequívocos disso.”

(…)

O homem cria a imagem de poder, de controlo, de invulnerabilidade, no fundo uma necessidade de agir como um herói porque foge da realidade, que contém sofrimento e desamparo. Essa “metafísica do sucesso” pode ser uma máscara de alegria.


“Como é natural, a realidade do mundo sentimental verdadeiro consiste, também, noutros conteúdos vivenciais: alegria, êxtase, coragem e luto.

Mas não da alegria que se instala por passarmos à frente de alguém, ou o êxtase que pode ser causado pelo sucesso obtido numa competição, quer dizer, todas aquelas vivências que, já de si, provém de uma realidade “postiça”: a da necessidade de ter sucesso para fugir ao falhanço. Falo da alegria baseada em empatia causada pelo desenvolvimento de outra pessoa, ou até de uma planta; a vivência partilhada de alegrias e tristezas. (…)”


O mito da mulher troféu, reluzente, que numa desmedida solicitude nos preenche a pretensão do ego para a superioridade, no fundo a presença de outros, em contexto grupal leva o homem ao jogar pelo inseguro.
A mulher como extensão do homem, segundo a teoria deste autor.
Também podemos referir que muitas mulheres ainda valorizam a imagem estereotípica da postura M. Aceitam a condição de sub conjugação, ignoram que sem igualdade, não existe uma verdadeira apreensão da realidade.
A falsa cedência por parte da mulher advém de um défice de confiança intrínseca que teima em parecer carecer de um excesso de auto-afirmação por parte do homem, o seu herói protector.

Arno, Gruen

1996 A Traição do Eu, o medo da autonomia no homem e na mulher, Assírio & Alvim, Lisboa

Livrarias: Assírio e Alvim

Formiga