segunda-feira, novembro 17, 2008

Pragmática da Comunicação Humana por Paul Watzlawick

Imagem de João Samões



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Em primeiro lugar, temos uma propriedade do comportamento que dificilmente poderia mais básica e que, no entanto, é frequentemente menosprezada: o comportamento não tem oposto. Por outras palavras, não existe um não-comportamento ou, ainda em termos mais simples, um indivíduo não pode não se comportar. Ora, se está aceite que todo o comportamento, numa situação interaccional [...] tem valor de mensagem, isto é, é comunicação, segue-se que por muito que o individuo se esforce, é-lhe impossível não comunicar. Actividade ou inactividade, palavras ou silêncio, tudo possui valor da mensagem; influenciam outros e estes outros, por sua vez, não podem responder a essas comunicações e, portanto, também estão comunicando. Deve ficar claramente entendido que a mera ausência de palavras ou de observar não constitui excepção ao que acabamos de dizer. […]
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Destacou-se pelo trabalho na teoria da comunicação desenvoldido em conjunto com Gregory Bateson. Também teve um papel activo na construção da teoria do Double Bind (Watzlawick costuma dar como exemplo de Double Bind o caso de uma mãe que oferece no Natal duas camisas ao seu filho. No dia seguinte o filho usa(va) uma das camisas oferecidas pela mãe, ao que a mãe lhe pergunta: "Então filho? Não gostaste da outra camisa?").


formiga

quarta-feira, setembro 24, 2008

Os homens ocos, de T. S. ELIOT

Imagem retirada do blog: Fiel Inimigo


Os homens ocos, de T. S. ELIOT



OS HOMENS OCOS
“A penny for the Old Guy”
(Um pêni para o Velho Guy)
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Forma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frémito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trémulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a acção
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reacção
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(tradução: Ivan Junqueira)

sábado, setembro 06, 2008

Crianças de rua



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As equipas de intervenção (do Instituto de Apoio à Criança) assentam na figura do animador de rua, que tem como primeiro objectivo estabelecer uma relação fraternal com a criança (e com o adolescente), através da qual se vai posicionar como referência emocionalmente securizante.
Até se chegar a uma relação estável demora-se sempre algum tempo, devendo respeitar o ritmo da criança, as suas desconfianças, suspeitas e frequentemente mentiras, como formas de defesa perante uma pessoa desconhecida que ela considera potencialmente ameaçadora. Pouco a pouco, o animador torna-se útil, quer como companheiro de lazer, quer como ouvinte atento e não crítico.
Uma vez estabelecidos laços, o animador tem como missão ajudar a criança a construir um projecto de vida: Ora como se depreende do que atrás referi, nesta fase ele vai-se confrontar com uma segunda dificuldade: a criança (o adolescente) da rua, tão competentes para desenvolverem estratégias de sobrevivência no Presente, revelam, muitas vezes, sérias dificuldades em equacionar o Futuro. Também aqui pode o animador não pode cair na tentação da manipulação: qualquer tentativa desse género, iria provocar uma regressão séria na relação entretanto estabelecida, gerando antigos medos e desconfianças.
Basicamente, o seu projecto de vida leva-o a problematizar a questão da família, da escola e do trabalho donde fugiu ou foi expulso.
O papel de animador de rua, discretamente apoiado por uma equipa técnica que desenvolve um trabalho de retaguarda, é de ajudar a definir objectivos viáveis e de contribuir para que essas pequenas metas sejam atingidas com êxito.
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Bibliografia:

1993 " A criança de rua: um rejeitado da cidade", in A cidade. Jornadas inter e pluridisciplinares, Actas II, pp. 321-334, Lisboa, Universidade Aberta


Já em 1993 havia uma base teórica no combate à deliquência, arrojada. É caso para dizer que aos produtos de investigação nas diversas áreas das Ciências Sociais e Educacionais estão normalmente à frente dos decisores politicos.
O investimento num projecto de rua junto de crianças abandonadas, é chamado de trabalho invisivel porque não traz resultados imediatos e longe está de gerar grandes entusiasmos. Para combater o crime é bem melhor um grupo de Intervenção Policial e o respectivo espectáculo TV.
O medo faz o homem se tornar uma besta. Não foi nos anos 40-50, foi agora, em pleno século XXI em que se hesitou entre ajudar ou exterminar para limpar o mal que "anda por aí"
De 93 a 08 apareceu uma nova forma de abandono, que não sendo fisico gera inúmeros problemas (por exemplo: violência escolar), dar-lhe-ei o nome de "acompanhamento esquivo", onde predomina o discurso incoerente.
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Formiga

Ver este artigo:

A chacina das crianças da Candelária


sábado, junho 21, 2008

A História Fabulosa de Peter Schlemihl

Imagem retirada de Gatos Vadios


Titulo: A História Fabulosa de Peter Schlemihl
Autor:Adelbert Von Chamisso
Disponivel na: Assírio & Alvim

Excerto do Ensaio de João Barrento
“(…) A sombra é um atributo intrínseco de um objecto, de um lugar, de um ambiente, dos próprios alimentos e dos rituais de sua fruição. A sombra é o silêncio da luz; se esta revela e retira como catalizador do enigma das coisas e dos próprios sentidos. (…)”
Excerto da obra:
“Meu senhor! Ouça, meu senhor!
Voltei-me e vi uma mulher velha que me disse:
- Tenha cuidado, senhor! Perdeu a sombra!”

Ver mais:
Artigo do Diário de Notícias, 27 Junho 2005

Café dos Loucos

Numa relação mais intercultural temos: O Elogio da Sombra de Junichiro Tanizaki

Excertos da obra" As Sombras errantes" de Quignard em: Divas & Contrabaixos

Formiga

Tertúlia dos Mentirosos


“São contos, são filosóficos e vêm do mundo inteiro. São Zen ou Sufi, chineses ou judaicos, indianos ou africanos. São também europeus, americanos, contemporâneos. Engraçados, graves, ou as duas coisas, ao mesmo tempo. São, por vezes ambíguos, desconcertantes e, até, inquietantes. Parecem-se connosco.
Jean-Claude Carrière, ao longo de mais de vinte e cinco anos de trabalho, recolheu-os, escreveu-os e ordeno-os como se se tratasse de um manual de filosofia. Trata-se, pois da filosofia através dos contos, de um manual em que o caminho para o conhecimento é aleatório e divertido, constituído unicamente pelas melhores histórias do mundo.
Estes contos, que atravessam o tempo e o espaço, tratam de todas as questões que, ao longo da história da humanidade e da nossa própria história, sempre nos inquietaram e agitaram. Dizem verdades que sós os mentirosos conhecem.
Enfim, dizem-nos tudo aquilo que só os contos podem dizer.”

Lição dada a corcunda
Um pregador, na cátedra, gostava de demonstrar que a obra de Deus não tem falhas.
A história – que é europeia, provavelmente francesa – conta que um corcunda, ao ouvir o pregador, teve dificuldade em acreditar nele. Um dia espero-o à saída da igreja e disse-lhe:
- Dizeis que Deus faz bem tudo o que faz, mas olhai como fui feito!
O pregador examinou-o por um momento respondeu-lhe:
- Mas, meu amigo, de que vos queixais? Para corcunda, sois muito bem feito.

Ver mais em:

Laranja com Canela


O Homem Que Sabia Demasiado

segunda-feira, abril 14, 2008

Luz Silenciosa

Imagem retirada de http://luzsilenciosa.blogspot.com/

O último filme de Carlos Reygadas demonstra uma maturidade de visão espantosa neste conto hipnotizante de amor e de traição que tem como pano de fundo a comunidade pastoral menonita do norte do México. Luz Silenciosa conta a históriade Johan, um homem casado que, contra as leis da sua fé e as crenças tradicionais, se apaixona por outra mulher enfrentando assim um dilema interno, o de trair a sua mulher, a qual amou, e romper desta forma a estabilidade aparente da comunidade ou sacrificar o seu amor verdadeiro e felicidade futura. Filmado de uma forma sublime, inteiramente na comunidade menonita mexicana perto de Chihuahua, Luz Silenciosa abre com o que é discutivelmente o plano único mais notável do ano, a aurora a despontar numa paisagem rural. O controlo da imagem e som de Reygadas confirmam a sua posição como um dos autores de cinema mais distinguidos.
Retirado do dossier Atalanta Filmes: Luz Silenciosa


Se dizer que para alguns cinéfilos este filme foi um longo bocejo, não estarei a fugir muita à verdade. A obsessão pela forma gerou situações de abandono compulsivo na sala. Pessoas que saíram a grande velocidade como estivessem a fugir sei lá do quê!

O meu veredicto: não estamos na presença de uma obra-prima, no entanto há passagens bem significativas que merecem alguma reflexão.

O Homem tem poder para determinar o seu destino, apenas usando o que existe?

Mas é última instância é nos dada a lição que o amor altruísta jamais é intrusivo. Mulher sôfrega sem legitimidade para pedir e não largar o que não é seu por convenção. A desdita “cabra”.

O Johan descobre a sua alma gémea, mas em si no filme não é mostrado um plano de intimidade entre estes dois amantes. Há o banalizado enlace sexual, que é pouco para definir uma relação harmoniosa que não seja a antecâmara do esquecimento passados uns meses.

Mais pertinente é o dilema amor versus paz. A desenvolver por mim agora.

Muitas mudanças e convulsões sociais geraram precariedade e mesmo algum sofrimento, na lógica do enamoramento ainda temos a nota de culpa. Estes são os grandes temas deste filme: a culpa e remorso e o arrependimento.

A resignação é uma via de paz… má? boa? É caso para dizer que sem ti não se vive, ou contigo também não se vive! É um dado viciante, pois evita-se o incómodo do remorso e até um certo desconforto. Mas deste modo é possível: uma bela e temperada desesperança tomar conta das ocorrências da nossa vida. O que fazer? A tal dúvida sistemática, o incómodo e solidão.

Sem procurar generalizar, até porque no mundo dos afectos é uma má abordagem, poder-se-á que é de princípio mor manter uma certa elegância e estilo a par com a capacidade de surpreender mesmo passados 500 mil anos. Se o outro mesmo numa situação tão favorável mesmo assim quer ir em debanda é porque alguma coisa está ainda mui podre no reino da Dinamarca.

Já na nos últimos minutos da fita é visto o sacrifício como prova suprema de amor, alguém renuncia para poder ainda mais amar. Todo o sentido a comparação com o bucolismo rural, onde um germinador de vida também é a luz. E veio a noite…

O filme italiano Baunilha e Chocolate é a ligação perfeita esta Luz Silenciosa. Formiga


Ver videos:

Luz Silenciosa: STELLET LICHT

Baunilha e Chocolate: Vaniglia e Cioccolato


quinta-feira, abril 03, 2008






O Dia Internacional do Teatro celebra-se a 27 de Março.
Neste dia (noite) no Chapitô conheci a grande Senhora do mundo do espectáculo: Teresa Ricou. O saber bem-fazer e o bem saber receber nesta casa com quase 30 anos é uso e costume.
No Bartô as amigas de Formiga ficaram em local privilegiado para assistir ao último espectáculo da noite com Deborah Kristal.
Para conhecer mais acerca do Chapitô e a sua faceta social, também como uma instituição de solidariedade, ver aqui: Artigo de Jornal
A noite começou com uma coregrafia de dança com forte e denso simbolismo e depois o actor Bruno Schiappa e o músico Pedro Fontaínhas estiveram no (I)mortal, um espectáculo ao som de piano com boas canções e poesia com um sentido antropológico interessante.


A grande convidada da noite foi Adelaide João, actriz com muito relevo na história do teatro português.
Também foi possível vislumbrar mais gente do teatro, entre vários, o conhecido actor Miguel Melo (Batanetes).
Momento solene foi a leitura da mensagem do Dia Mundial do Teatro pela actriz e encenadora do Teatro Sensurround, Lúcia Sigalho.
Mensagem de Robert Lapage

(…) ---> clicar para ver o texto na integra