"O rosto recebe ainda os últimos raios. Sem nada perder da sua palidez. Da sua frieza. O sol suspende a sua queda o tempo de tal imagem rasando o horizonte. Que é como diz a terra a sua desordem. Os finos lábios parecem destinados a não mais se abrirem. Na mal reprimida sutura um pouco de polpa. Pouco provável teatro de beijos outrora dados e recebidos. Ou dados somente. Ou somente recebidos. A reter sobretudo a ínfima curva das comissuras. Um sorriso? Será possível? Sombra de sorriso antigo que enfim sorri de uma vez por todas. Assim se apresenta a mal entrevista boca à luz dos últimos raios que de súbito a abandonam. Ou que a própria boca porventura abandona. Regressa à escuridão onde sorrir sempre. Se sorrir é isso."
…[o] mundo aí está, e nele, imediatamente visíveis, aí estão os efeitos da aplicação da grande utopia neoliberal: não só a miséria e o sofrimento de uma fracção cada vez maior das sociedades economicamente mais avançadas, o aumento extraordinário das diferenças entre os rendimentos e o desaparecimento progressivo dos universos autónomos de produção cultural, cinema, edição, etc., …, e portanto, a prazo, dos próprios produtos culturais, através da intrusão crescente de considerações de ordem comercial, mas também e sobretudo a destruição de todas as instâncias colectivas capazes de se oporem aos efeitos da máquina infernal, na primeira das quais se encontra o Estado, depositário de todos os valores universais associados à ideia de público, e a imposição, por toda a parte, nas altas esferas da economia e do Estado, ou dentro das empresas de uma espécie de Darwismo moral que, juntamente com o culto do winner, com a sua formação em matemáticas superiores e em “desportos radicais”, instaura a luta de todos contra todos e o cinismo como normas de todas as práticas.
BOURDIEU, Pierre
1998, Contrafogos. O Neoliberalismo, utopia (em vias de realização) de uma exploração sem limites. Oeiras: Celta.
Em primeiro lugar, temos uma propriedade do comportamento que dificilmente poderia mais básica e que, no entanto, é frequentemente menosprezada: o comportamento não tem oposto. Por outras palavras, não existe um não-comportamento ou, ainda em termos mais simples, um indivíduo não pode não se comportar. Ora, se está aceite que todo o comportamento, numa situação interaccional [...] tem valor de mensagem, isto é, é comunicação, segue-se que por muito que o individuo se esforce, é-lhe impossível não comunicar. Actividade ou inactividade, palavras ou silêncio, tudo possui valor da mensagem; influenciam outros e estes outros, por sua vez, não podem responder a essas comunicações e, portanto, também estão comunicando. Deve ficar claramente entendido que a mera ausência de palavras ou de observar não constitui excepção ao que acabamos de dizer. […]
Destacou-se pelo trabalho na teoria da comunicação desenvoldido em conjunto com Gregory Bateson. Também teve um papel activo na construção da teoria do Double Bind (Watzlawick costuma dar como exemplo de Double Bind o caso de uma mãe que oferece no Natal duas camisas ao seu filho. No dia seguinte o filho usa(va) uma das camisas oferecidas pela mãe, ao que a mãe lhe pergunta: "Então filho? Não gostaste da outra camisa?").
“A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy)
Nós somos os homens ocos Os homens empalhados Uns nos outros amparados O elmo cheio de nada. Ai de nós! Nossas vozes dessecadas, Quando juntos sussurramos, São quietas e inexpressas Como o vento na relva seca Ou pés de ratos sobre cacos Em nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem cor Força paralisada, gesto sem vigor; Aqueles que atravessaram De olhos retos, para o outro reino da morte Nos recordam - se o fazem - não como violentas Almas danadas, mas apenas Como os homens ocos Os homens empalhados. II Os olhos que temo encontrar em sonhos No reino de sonho da morte Estes não aparecem: Lá, os olhos são como a lâmina Do sol nos ossos de uma coluna Lá, uma árvore brande os ramos E as vozes estão no frémito Do vento que está cantando Mais distantes e solenes Que uma estrela agonizante. Que eu demais não me aproxime Do reino de sonho da morte Que eu possa trajar ainda Esses tácitos disfarces Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas E comportar-me num campo Como o vento se comporta Nem mais um passo - Não este encontro derradeiro No reino crepuscular III Esta é a terra morta Esta é a terra do cacto Aqui as imagens de pedra Estão eretas, aqui recebem elas A súplica da mão de um morto Sob o lampejo de uma estrela agonizante. E nisto consiste O outro reino da morte: Despertando sozinhos À hora em que estamos Trémulos de ternura Os lábios que beijariam Rezam as pedras quebradas. IV Os olhos não estão aqui Aqui os olhos não brilham Neste vale de estrelas tíbias Neste vale desvalido Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos Neste último sítio de encontros Juntos tateamos Todos à fala esquivos Reunidos na praia do túrgido rio Sem nada ver, a não ser Que os olhos reapareçam Como a estrela perpétua Rosa multifoliada Do reino em sombras da morte A única esperança De homens vazios. V Aqui rondamos a figueira-brava Figueira-brava figueira-brava Aqui rondamos a figueira-brava Às cinco em ponto da madrugada Entre a ideia E a realidade Entre o movimento E a acção Tomba a Sombra Porque Teu é o Reino Entre a concepção E a criação Entre a emoção E a reacção Tomba a Sombra A vida é muito longa Entre o desejo E o espasmo Entre a potência E a existência Entre a essência E a descendência Tomba a Sombra Porque Teu é o Reino Porque Teu é A vida é Porque Teu é o Assim expira o mundo Assim expira o mundo Assim expira o mundo Não com uma explosão, mas com um suspiro. (tradução: Ivan Junqueira)
As equipas de intervenção (do Instituto de Apoio à Criança) assentam na figura do animador de rua, que tem como primeiro objectivo estabelecer uma relação fraternal com a criança (e com o adolescente), através da qual se vai posicionar como referência emocionalmente securizante.
Até se chegar a uma relação estável demora-se sempre algum tempo, devendo respeitar o ritmo da criança, as suas desconfianças, suspeitas e frequentemente mentiras, como formas de defesa perante uma pessoa desconhecida que ela considera potencialmente ameaçadora. Pouco a pouco, o animador torna-se útil, quer como companheiro de lazer, quer como ouvinte atento e não crítico.
Uma vez estabelecidos laços, o animador tem como missão ajudar a criança aconstruir um projecto de vida: Ora como se depreende do que atrás referi, nesta fase ele vai-se confrontar com uma segunda dificuldade: a criança (o adolescente) da rua, tão competentes para desenvolverem estratégias de sobrevivência no Presente, revelam, muitas vezes, sérias dificuldades em equacionar o Futuro. Também aqui pode o animador não pode cair na tentação da manipulação: qualquer tentativa desse género, iria provocar uma regressão séria na relação entretanto estabelecida, gerando antigos medos e desconfianças.
Basicamente, o seu projecto de vida leva-o a problematizar a questão da família, da escola e do trabalho donde fugiu ou foi expulso.
O papel de animador de rua, discretamente apoiado por uma equipa técnica que desenvolve um trabalho de retaguarda, é de ajudar a definir objectivos viáveis e de contribuir para que essas pequenas metas sejam atingidas com êxito.
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Bibliografia:
1993 " A criança de rua: um rejeitadoda cidade", in A cidade. Jornadas inter e pluridisciplinares, Actas II, pp. 321-334, Lisboa, Universidade Aberta
Já em 1993 havia uma base teórica no combate à deliquência, arrojada. É caso para dizer que aos produtos de investigação nas diversas áreas das Ciências Sociais e Educacionais estão normalmente à frente dos decisores politicos.
O investimento num projecto de rua junto de crianças abandonadas, é chamado de trabalho invisivel porque não traz resultados imediatos e longe está de gerar grandes entusiasmos. Para combater o crime é bem melhor um grupo de Intervenção Policial e o respectivo espectáculo TV.
O medo faz o homem se tornar uma besta. Não foi nos anos 40-50, foi agora, em pleno século XXI em que se hesitou entre ajudar ou exterminar para limpar o mal que "anda por aí"
De 93 a 08 apareceu uma nova forma de abandono, que não sendo fisico gera inúmeros problemas (por exemplo: violência escolar), dar-lhe-ei o nome de "acompanhamento esquivo", onde predomina o discurso incoerente.
“(…) A sombra é um atributo intrínseco de um objecto, de um lugar, de um ambiente, dos próprios alimentos e dos rituais de sua fruição. A sombra é o silêncio da luz; se esta revela e retira como catalizador do enigma das coisas e dos próprios sentidos. (…)”
“São contos, são filosóficos e vêm do mundo inteiro. São Zen ou Sufi, chineses ou judaicos, indianos ou africanos. São também europeus, americanos, contemporâneos. Engraçados, graves, ou as duas coisas, ao mesmo tempo. São, por vezes ambíguos, desconcertantes e, até, inquietantes. Parecem-se connosco.
Jean-Claude Carrière, ao longo de mais de vinte e cinco anos de trabalho, recolheu-os, escreveu-os e ordeno-os como se se tratasse de um manual de filosofia. Trata-se, pois da filosofia através dos contos, de um manual em que o caminho para o conhecimento é aleatório e divertido, constituído unicamente pelas melhores histórias do mundo.
Estes contos, que atravessam o tempo e o espaço, tratam de todas as questões que, ao longo da história da humanidade e da nossa própria história, sempre nos inquietaram e agitaram. Dizem verdades que sós os mentirosos conhecem.
Enfim, dizem-nos tudo aquilo que só os contos podem dizer.”
Lição dada a corcunda
Um pregador, na cátedra, gostava de demonstrar que a obra de Deus não tem falhas.
A história – que é europeia, provavelmente francesa – conta que um corcunda, ao ouvir o pregador, teve dificuldade em acreditar nele. Um dia espero-o à saída da igreja e disse-lhe:
- Dizeis que Deus faz bem tudo o que faz, mas olhai como fui feito!
O pregador examinou-o por um momento respondeu-lhe:
- Mas, meu amigo, de que vos queixais? Para corcunda, sois muito bem feito.